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Ibero-American Electronic Text Series

Dionísio, João / Leal Conselheiro: Introduction to the electronic edition / Leal Conselheiro: Introdução à edição electrónica

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Introdução à edição electrónica

Fundamentos

Enquanto o estatuto em curso dos textos tem sido reconhecido por diferentes correntes da crítica textual, designadamente pela crítica genética, uma visão descentrada e não-romântica do papel autoral tem chamado a atenção para o processo colaborativo por detrás da criação literária. No pano de fundo de abordagens que procuram captar o movimento de entidades habitualmente vistas como estáveis e que procuram compreender o modo como a agência autoral numa obra é frequentemente disseminada por diversas pessoas, propor uma edição que é ao mesmo tempo um texto em curso e uma iniciativa de colaboração dificilmente causará surpresa. Este é o nosso duplo objectivo ao lançarmos esta edição electrónica do Leal Conselheiro, um tratado moral que D. Duarte concluiu em 1437-1438. Em relação a este duplo objectivo, parece apropriado transcrever dois passos de autores que D. Duarte conheceu bem. O primeiro passo, retirado do prólogo escrito por Alonso de Cartagena para a tradução que elaborou do De Officiis de Cícero, evidencia uma abordagem algo utilitária da tradição:

E ésta es por cierto la orden: que nos aprovechemos de los trabajos de los anteçesores e nosotros fagamos de que se aprovechen los sucçesores por que non sólo entre los omes de un tiempo, mas aun entre los que fueren en diversas hedades, sean comunicadas las obras. (Cartagena 205, lines 104-108).

Tentámos seguir a ordem a que se refere Cartagena através do reconhecimento de um legado. Eis porque este projecto continua uma longa tradição editorial que começou em 1842 com a edição de J. I. Roquete, logo seguida pela de Francisco António Campos em 1843. O primeiro estabelecimento crítico do Leal Conselheiro veio a lume em 1942 pela mão do filólogo alemão Joseph Piel, cujo trabalho foi revisto por Maria Helena Lopes de Castro em 1998. Tendo em conta esta linhagem editorial, em vez de construirmos a partir do zero uma nova edição, favorecemos a ideia de prestar homenagem a todos os filólogos que, desde meados do séc. XIX, fizeram o melhor para nos fornecer um texto fiável. Em vez de esquecermos quem nos antecedeu, gostaríamos de reconhecer e actualizar o seu legado. Com este intuito, temos em mente, por exemplo, o que Gottfried Kreuz conseguiu fazer ao continuar a edição que Michael Petschenig elaborou dos tratados religiosos de João Cassiano. Kreuz manteve todas as leituras propostas por Petschenig que hoje são tomadas como fiáveis e interveio cirurgicamente em menos de 20 lugares (Espírito Santo 478).

Se por um lado procuramos integrar a tradição filológica, por outro lado, estamos convictos de que a presente edição pode ser melhorada através de contributos futuros, uns provenientes de membros da equipa deste projecto, outros dos utilizadores da edição electrónica. Para ilustrar este aspecto, transcreve-se a segunda passagem acima referida, que se encontra num manual de caça escrito por D. João I, o pai de D. Duarte:

E porem rogamos a todollos monteiros que agora som, e aos que depois uierem, que em esto melhor souberem, que glossem sobre ello: ca os emperadores romanos fizerom as leyes, e porem non deixou o doutor Acursio de glossar ainda sobre ellas, e o Bardo nom leixou de sobre ellas muytas lecturas de fazer. E porem uos companheiros nom leixedes de fazer que quanto for milhor feita, tanto sera mais proueitosa a obra. (João I 117).

Ao adoptarmos este ethos de colaboração, o estabelecimento crítico do texto de D. Duarte irá sendo afinado. Por isso, convidamos todos os interessados a enviarem correcções, novos dados e sugestões para o seguinte endereço electrónico: joaodionisio@campus.ul.pt. Todas as informações recebidas julgadas pertinentes serão creditadas.

A presente edição electrónica compreende um texto editado, notas de antroponímia e toponímia, um aparato crítico com as leituras mais importantes fornecidas pelos editores anteriores e um facsímile completo do manuscrito de Paris.

Normas de Transcrição

O texto que oferecemos aqui baseia-se nas normas de transcrição de Joseph Piel (Piel XXIII-XXV), tendo sido introduzidas mudanças ligeiras (especificadas a seguir sempre que for conveniente):

1. Palavras que aparecem como uma unidade no manuscrito são separadas, excepto quando a segunda palavra é enclítica: (oqual > o qual; but darlhe > darlhe). Diferentemente de Piel, distinguimos entre o porque causal e o por que final.
2. Os nomes próprios são maiusculados (ingraterra > Ingraterra).
3. As abreviaturas são desenvolvidas silenciosamente (jhu xpo > Jesu Cristo). Diferentemente do que Piel propõe, desenvolvemos .s. em convem a saber, e não em scilicet.
4. v e j tomam o lugar de u e i quando têm um valor consonântico (auer > aver; enueia > enveja).
5. i toma o lugar de j quando esta letra tem valor vocálico (ujuer > viver).
6. y é mantido sempre que apareça no manuscrito.
7. Os acentos são usados quando a pronúncia de uma forma medieval possa causar dúvida ou quando uma palavra for passível de ser confundida com outra (cárrego 'cargo', de modo a não ser lida como a forma verbal carrego; medês 'mesmo', em vez de medes; cantaróm, para indicar que se trata do futuro do indicativo, assim prevenindo a confusão com o pretérito perfeito cantarom). Apóstrofos são usados com o mesmo objectivo (dobrar > d'obrar; sobresto > sobr'esto).
8. n ou m m tomam o lugar de ~ quando o til representa alguma destas consoantes (mareãtes > mareantes; tẽpo > tempo). Quando reproduzem o timbre nasal, m ou n são usados em especial nos lugares em que o manuscrito de Paris mostra uma preferência por esta representação gráfica (paixõ > paixom; cõvem > convem).
9. Representações gráficas que não são etimologicamente correctas são conservadas (ex. hidade, veencer, magnifesto, etc.).
10. As alterações efectuadas no texto crítico em relação à lição do manuscrito não são destacadas por símbolos, mas apenas assinaladas através de sublinhado discreto que remete para uma nota de aparato. Assim, não usamos nenhum dos símbolos presentes na edição Piel.
11. Manteve-se a pontuação da edição Piel, excepto quando se julgou encontrar uma alternativa melhor.

Uma das modificações mais importantes no texto que agora se disponibiliza, quando comparado com o das edições anteriores, é que foi segmentado em cláusulas numeradas de modo a facilitar a leitura com cruzamento de informação.

Antroponímia e Toponímia

Além das notas do aparato, os nomes de pessoas e de lugares também foram objecto de anotação, efectuada segundo diferentes registos de autoridades: Library of Congress Authorities (http://authorities.loc.gov/); Biblioteca Nacional de Portugal - Bases de Dados de Autoridades - Pessoa Física (http://pacweb.bn.pt/autores.htm); Portugal. Biblioteca Nacional, Siporbase: sistema de indexação em português: manual. Lisboa: Biblioteca Nacional, [1998]; e RAMEAU (Répertoire d’autorité-matière encyclopédique et alphabétique unifié) (http://rameau.bnf.fr/).

Aparato

Embora o aparato que disponibilizamos seja, até agora, o menos lacunar de todas as edições do Leal Conselheiro, dando mais informação acerca das leituras do que qualquer outra edição, não se trata de um dispositivo exaustivo e é intencionalmente incompleto. Omitimos deliberadamente os lapsos tipográficos inadvertidos pelos editores que nos antecedeream na medida em que, sendo erros que passaram despercebidos, não fazem justiça aos objectivos e à percepção de cada filólogo. Estas omissões dizem sobretudo respeito às edições oitocentistas, cujo número considerável de leituras erradas não terá sido alheio à rapidez com que foram elaboradas.

O aparato é organizado de modo económico. Significa isto que, independentemente das normas de transcrição que foram aplicadas, quando um editor repete uma leitura já antes fornecida, o aparato acolhe informação apenas a respeito da primeira vez que a leitura em questão foi proposta. Apesar de as duas primeiras edições do Leal Conselheiro terem sido publicadas em anos diferentes (1842 and 1843), elas foram de facto preparadas ao mesmo tempo. Portanto, achámos conveniente dar as leituras de ambas de forma sistemática, mesmo quando são concordantes.

Usámos as seguintes abreviaturas no aparato:

Roquette    Leal Conselheiro (...) seguido do Livro da Ensinança de bem cavalgar toda sella. Pref. Visconde de Santarém; ed. J.-I. Roquette. Paris, V.e J.-P. Aillaud, Monlon e C.ie, 1842. (lido pela ed. revista de 1854)
Rol.    Leal Conselheiro e Livro da Ensinança de bem cavalgar toda sela, escritos pelo Senhor D. Duarte. Ed. [Francisco António Campos]. Lisboa, Typographia Rollandiana, 1843.
Piel    Leal Conselheiro o qual fez Dom Eduarte. Ed. Joseph M. Piel. Lisboa: Livraria Bertrand, 1942.
Castro    Leal Conselheiro. Ed. Maria Helena Lopes de Castro. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1998.

Quando algum dado pertinente respeitante à fixação crítica se encontra numa nota de rodapé de alguma destas edições, fornecemos esse dado no aparato com recurso à abreviatura pertinente seguida por “(nota)”.

Bibliografia

Cartagena, Alonso de. Libros de Tulio: De Senetute, De los Ofiçios. Ed. María Morrás. Madrid: Universidad de Alcalá de Henares, 1996.
Espírito Santo, Arnaldo do. Recensão a Cassianus, Collationes. Edidit Michael Petschenig. Editio altera supplementis aucta, curante Gottfried Kreuz. CSEL, vol. XIII, Wien Österreische Akademie der Wissenschaften, 2004; and Cassianus, De Institutis coenobiorum, De Incarnatione contra Nestorium. Edidit Michael Petschenig. Editio altera supplementis aucta, curante Gottfried Kreuz. CSEL, vol. XVII, Wien, Österreische Akademie der Wissenschaften, 2004. Euphrosyne. Revista de Filologia Clássica, nova série, volume XXXIII, Centro de Estudos Clássicos, Faculdade de Letras de Lisboa (2005): 477-478.
João I, D. Livro da Montaria. Ed. Francisco Maria Esteves Pereira. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1918.
Piel, Joseph M. Prefácio. D. Duarte, Leal Conselheiro. Ed. J. M. Piel. Lisboa: Bertrand, 1942. IX-XXVI.

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