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The Arts Collection

Akademia Cartonera: Un ABC de las editoriales cartoneras en América Latina (2009)

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Dulcinéia Catadora (Brasil)

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Dulcinéia é mais que um grupo formado por artistas, fotógrafos, jornalistas, jovens filhos de recicladores, adultos com história pregressa de situação de rua que escrevem e escritores.[1] É um coletivo de pessoas que se unem pela diferença; pessoas com origens étnicas, credos, formações, modos de vida diversos.

A diversidade entre os participantes estimula a discussão e o respeito às diferenças, sem, contudo, ser consideradas como desigualdades, abrindo espaço para o entrelaçamento de vivências e o estabelecimento de redes de afetos. É essa formação do grupo que orienta as atividades na oficina, marcadas não só pela complexidade do trabalho, mas também pela heterogeneidade do “produto” livro.

ARTE E VIDA

Apesar de ser um aspecto fundamental para o grupo, a função social é apenas um dos objetivos do Dulcinéia. Sem qualquer intenção assistencialista, não dependemos do patrocínio de entidades públicas ou privadas. Nossa proposta é funcionarmos de modo auto-sustentável. O Dulcinéia é mantido pela renda gerada da venda de livros e com cachês de trabalhos artísticos. Os jovens filhos de catadores não recebem doação ou salário, mas dividem a renda oriunda da própria atividade que é a de pintar as capas dos livros e confeccioná-los, dando a estes uma marca pessoal cujo resultado tem um valor muito particular aos olhos do público. O retorno obtido através das expressões e manifestações do público desperta neles a possibilidade de lutarem por uma vida mais digna, de perseguirem um futuro mais realizador, de buscarem uma profissão que lhes permita se realizarem como pessoas.

Desacreditamos na autonomia da arte, a arte desconectada da vida, das relações humanas, do contexto social, político e econômico. Temos um forte vínculo com catadores, e muitas são as razões para essa integração. Uma delas é o fato de o papelão, de caixas usadas basicamente pela indústria, para o transporte de produtos, ser a matéria básica usada nas capas de nossos livros. Esse papelão é recolhido das ruas, de portas de lojas, depósitos de supermercados, galpões de fábricas, por catadores de papel, que chegam a carregar quinhentos quilos em seus carrinhos, enfrentando ruas íngremes, os passos lentos e pesados nas subidas, e os breques, pedaços de borracha de pneu amarrados a um “cabo” de madeira fixado nos carrinhos, raspando no asfalto, nas descidas.

Compramos o papelão de catadores ou nas cooperativas a um Real o quilo. No Brasil a situação econômica de crise mundial no final de 2008 tem provocado a queda no preço do papelão. E as cooperativas têm vendido esse material prensado para empresas recicladoras “com responsabilidade social” por apenas veinte centavos o quilo, o que está causando a quebra das cooperativas formalmente constituídas.

Temos ligação com o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, que coordena cooperativas em todo o território nacional. O movimento pretende dar dignidade ao catador, ressaltando seu papel como reciclador – indispensável para o país.

O Dulcinéia, ao incluir jovens filhos de catadores, procura melhorar a auto-estima deles, e a pintura das capas, a leitura dos livros produzidos, o contato e conversas com autores que colaboram e visitam a oficina, tudo contribui para que eles tenham a oportunidade de vislumbrar caminhos, muitas vezes nem pensados,  para seu futuro.

A sensibilização que ocorre espontaneamente abre canais para que esses jovens desenvolvam interesse por áreas como fotografia, música, literatura e isso leva alguns deles a perseguirem carreiras nessas áreas.

O FAZER ARTÍSTICO

Trabalhar com materiais disponíveis, com o descartado, é fundamental para o coletivo. Além do papelão, usa-se no miolo das impressões o papel reciclado industrialmente. O descartado tem uma história. É refugo da sociedade industrial. Daí as pinturas não esconderem impressões no papelão. Há um diálogo entre essas marcas impressas e a pintura feita em guache.

Os moldes com títulos de livros são feitos por todos os integrantes do Dulcinéia. Alguns livros chegam a ter quatro, cinco moldes. Isso contribui para a singularidade das capas; além da pintura de fundo. Não há lugar certo para se colocar o nome do autor, nem o título da obra. Essa atitude revela o quanto estamos desprendidos das práticas convencionais seguidas, por exemplo, por um designer gráfico. As capas são uma pintura que, depois de dobrada, protege o miolo do livro.

As capas de papelão são pintadas com espontaneidade. Não são ensinadas técnicas de pintura aos jovens. O ato de pintar livremente, desprendido de regras e técnicas, promove o ambiente descontraído; a ausência de pressão contribui para a troca de experiências, a interação entre as pessoas. Aceitar a livre expressão é não impor regras de cima para baixo.

Por isso a ausência de estrutura piramidal que caracteriza o Dulcinéia, como todos os coletivos. Estabelecer hierarquias é atribuir valor para cada atividade, contribuição e o papel desenvolvido pelos integrantes. Todas as contribuições são igualmente valorizadas. Repudiamos papéis, rótulos: somos todos integrantes, cada um respeitando a contribuição que os demais oferecem ao grupo.

O artista ou artistas que integram o coletivo não se colocam em posição de transferir conhecimentos. O conhecimento é construído coletivamente. O artista atua como catalisador, ativa as relações sociais e estimula uma articulação dinâmica entre os participantes. Os sentidos são construídos coletivamente. E é essa construção coletiva que traz a riqueza de significados. O artista funciona como produtor e reprodutor de sentidos culturais, um estimulador de interações, encontros que rompem os limites entre arte e vida, e aqueles que ainda existem na dicotomia entre arte e cultura popular.

Acreditamos que a experiência estética seja um ato coletivo, que gera o prazer no encontro e na participação. Mas, coletivo e o individual caminham juntos. Não se anulam as expressões individuais. Ao contrário, o coletivo reúne as riquezas e a diversidade das expressões e criações individuais.

Nossos livros são totalmente diferentes do produto “livro” industrializado, editado da maneira convencional. Nada de gráficas, nada de esquemas de distribuidoras. Não temos o objetivo empresarial de lucrar. Não seguimos as leis normativas que determinam o modo operacional de uma editora. Não somos constituídos formalmente. Não existimos como entidade comercial perante as leis de nosso país.

As tradicionais qualidades estéticas de beleza, harmonia e equilíbrio fazem parte dessa perspectiva, mas se relacionam ao processo a que a atividade se destina (a confecção de livros). A opção do Dulcinéia é seguir um caminho que não contempla a obra em si, mas a necessidade de lidar com as formas de expressão, o fazer artístico, o processo.

Os livros não são o “produto artístico” alcançado pelo grupo. São um resultado, mas não o ponto mais importante. Por isso, quando propomos um projeto, este inclui sempre uma oficina, que deixe claro que o fazer coletivo é o ponto fundamental do trabalho. Nossas participações em mostras de arte são sempre instalações-oficinas. São propostas híbridas que fogem das categorias tradicionais e, por essa razão, muitas vezes não são bem entendidas, geram perplexidade. As instalações, onde estão acontecendo oficinas, com pessoas pintando e produzindo em pleno espaço “expositivo”, deixam no ar o questionamento das modalidades tradicionalmente vistas em um espaço de arte.

INTERVENÇÕES URBANAS

Não restringimos nossas atividades àquelas desenvolvidas na oficina. Como coletivo, nossa atuação vai muito além da confecção de livros em espaço privado. Realizamos intervenções urbanas. Acreditamos que devemos ir para as ruas, o lugar por onde transita o catador de papel. É no espaço público que nos vemos atuantes no contexto social e político.

E podemos afirmar que nosso trabalho como coletivo acontece predominantemente fora do contexto do mundo artístico institucionalizado. Os coletivos, apesar de tantos, continuam desenvolvendo uma atividade considerada marginal. Não consideramos a arte como uma produção para um mercado. Atuamos fora da curadoria e das mãos controladoras das instituições, além das câmeras de vigilância dos tradicionais espaços que compõem o circuito da arte.

Nossas intervenções chamam a atenção para o papelão: Andamos pelas ruas com uma “capa” de papelão pintada, onde penduramos nossos livros. Com megafone, declamamos poesias de autores que colaboram com o Dulcinéia. Isso causa uma perturbação, rompe com os acontecimentos esperados do cotidiano. Divulgamos a literatura a alto e bom som. Literatura para todos, poesia nas praças públicas, pelas ruas, para quem quiser ouvir.

E também procuramos provocar descontinuidades na realidade, dando espaço para que os sujeitos envolvidos reconstruam sua subjetividade.Em certas intervenções, apenas fazemos uma pergunta, deixando o interrogado livre para interpretá-la e nos dispomos a ouvir e a anotar sua resposta. Esse momento mais que aproxima o público dos integrantes do coletivo: propicia uma troca rica de conteúdos.

Arte é práxis. O artista é construtor da estrutura da realidade. Desenvolve uma consciência atenta de seu lugar no mundo. Acreditamos que o livro com capa de papelão possa criar espaços de reflexão crítica.

REFERÊNCIAS À CULTURA POPULAR

Alguns livros do Dulcinéia Catadora possuem xilogravuras na página de rosto. Não são cópias, são xilogravuras, gravadas uma a uma no papel. Isto porque a xilogravura é uma linguagem popular, muito usada no Brasil, principalmente na região Nordeste, onde se mantém viva a literatura de cordel.

O cordel consiste, geralmente, em estrofes com 6 versos rimados. Registro escrito da prática de criação espontânea, oral, muito apreciado pelo povo, o cordel trata de uma variedade imensa de temas: ocorrências do dia-a-dia, notícias de jornal viram cordel; medidas políticas, a própria história do Brasil é contada e recontada em cordel. O tom ora bem-humorado ora sarcástico é comum. Esses livros são vendidos em feiras populares, na rua, pelos próprios autores, em seu diálogo direto com o público. Por isso, parece-nos quase natural incorporar essa prática da xilogravura e, também, livros com o próprio cordel, em nosso catálogo.

Outros livros trazem desenhos, ilustrações feitas pelos integrantes. E fotos feitas com pinhole (um processo artesanal de tirar fotos, que não emprega lente, usa material barato e tem um resultado que foge àqueles obtidos com câmeras fotográficas tradicionais) também são incluídas. Em suma, sempre usamos recursos da cultura popular que lidam com materiais facilmente disponíveis, baratos.

Uma vez que o processo para nós é o que importa, justifica-se a escolha de materiais “não nobres”. O Dulcinéia propõe manifestações efêmeras; suas manifestações têm um registro fotográfico ou filmado. Isto basta. A atuação no presente é o que importa, o instante é o foco. Aqui e agora. Atuar na sociedade em que vivemos.

ESCRITURAS E ESCRITORES

E a mesma atitude inclusiva é mantida com os autores que colaboram com o coletivo. Colaboradores do Dulcinéia Catadora se dispõem a garimpar, identificar e tornar visíveis áreas pensantes ‘marginais', pelo que carregam de particularidade e efetividade de pensamento.

Na escolha das práticas da palavra haverá sempre uma tendência de se ir ao encontro do que é percebido e pensado enquanto inscrição da comunidade. Entretanto, deve ficar claro que as formas escolhidas independem do tipo de inserção social dos artistas ou o modo como as formas artísticas refletem estruturas ou movimento sociais, como podem ver pela relação dos autores publicados pelo projeto que vai de Sebastião Nicomedes, morador de rua, a Manoel de Barros, diplomata. A escolha está na prática, na invenção de formas sensíveis, na novidade intuitiva da linguagem, nos exercícios “no limite”, na maneira como as obras “fazem política”, quaisquer que sejam as intenções ou quem as rege.

Acreditamos que o Dulcinéia tenha papéis diferentes para os três grupos distintos de autores colaboradores: os já conhecidos participam com entusiasmo de uma iniciativa que dá acesso amplo à literatura, ao vender livros a um preço tão acessível, com objetivos também sociais e inclusivos. A literatura no Brasil ainda continua sendo um privilégio de poucos, dadas as barreiras educacionais, econômicas impostas por uma política neoliberal.

Os autores têm uma forma original e alternativa de divulgar seu trabalho; enfim, conseguem ser lidos, ainda que por uma parcela ínfima de leitores. Mas atuam seu papel como escritores.

E aqueles autores que são moradores de rua, moram em albergues, têm, em primeiro lugar, uma parcela, mesmo que pequena, de sua auto-estima resgatada. Vêm a sua voz estampada em folhas de papel. São lidos por pessoas. Contrapõem, pelo menos em parte, o desprezo, a rejeição que a sociedade não esconde, por algo valorizado, um livro. Têm algo a dizer e conseguem leitores. Muda-se a relação deles com o mundo.

Contos e poesias são “publicados” pelo coletivo. Xerox é o recurso utilizado. Quarenta, cinqüenta livros de cada autor são montados por vez e a “produção” é feita de acordo com a demanda. Com isso acentua-se o caráter de resistência, de andar na contramão do mercado editorial, ou mesmo de trilhar um caminho alternativo que possibilita, ainda que em escala pequena, a divulgação de novos autores, abrindo caminhos paralelos na história da literatura latino-americana. Afinal, tão essencial e ao mesmo tempo sub-valorizada quanto a categoria do catador de papel é a tarefa do escritor latino-americano, de alinhavar uma história ainda em construção e que pouco interessa neste mundo separado por blocos de poder.

Trabalhar com a diversidade, divulgar a literatura, dar acesso a novos autores e favorecer o entrelaçamento de vivências são pontos fundamentais que acompanham nossas atividades diárias. Não temos uma postura utópica, não cabe mais a idéia de que é possível mudar o mundo. Queremos abrir os olhos para a realidade em que vivemos.

Reconhecemos que o âmbito de nossa ação acontece em uma microesfera, coerente com as formas de percepção propostas: identificar possibilidades, reconhecer o potencial de realidades diversas e das relações que nascem dos contatos entre elas através das práticas coletivas requer uma ruptura com as formas de viver de nossa sociedade, o questionamento delas, mesmo que se reconheçam os limites de tal proposição.

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Notes

[1] Participam regularmente do coletivo Peterson M. Emboava, Lucas O. dos Santos, Marlon M. Emboava, Israel de Abreu, Mauricio de Araújo, Joanna de Barros e Lúcia Rosa. Outros colaboradores, como Lívia Lima, Sebastião Nicomedes, Thiago Coelho, Ana D'Angelo, Tânia Rego e Carlos Rosa,  participam esporadicamente de algumas atividades.

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