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Ibero-American Electronic Text Series

Duarte, D. / Leal Conselheiro (1437–1438)

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Capitullo LXXXIX

Do Livro Pastoral sobre a liberaleza

  [f. 82 verso]   Folio Image

§1 Doutra guisa devem seer amoestados aquelles queRoquette: aquelles que
Rol: aquelles q̃
Piel: aquelles que
Castro: aaqueles que
todo o que tiinham misericordiosamente derem e doutra aaquelles que se trabalhom de tomar o alheo. §2 Devem seer amoestados aquelles os quaaes todo o sseu miserinte destribuemRoquette: misericordiosamente destruyrom
Rol: miserinte destroyço
Piel: miserinte destribuem
que nom ajom de ensobreverem porque as cousas terreaaes assy partirom§3 e nom por esso cuidem que som melhores porque aos outros nom veem assy fazer como a elles.

§4 O ssenhor deos as cousas terreaaes destribuioRoquette: terreaaes destribuio
Rol: terreaaes destribuir
Piel: terreaaes distribuio
Castro: terreaes destribuio
aos servos seus como lhe prouve: a hũus deu por que rejam outros; e aos outros por que per ellesRoquette: per elles
Rol: por elles
Piel: por elles
Castro: per elles
sejam regidos. §5 A aquelles mandouRoquette: A aquelles mandou
Rol: aaquelles mandom
Piel: A aquelles mandou
Castro: Aaqueles mandou
que dêm as cousas necessarias aos outros e sejamRoquette: outros que rejam
Rol: outros q̃ sejã
Piel: outros que sejam
Castro: outros e sejam
seus moordomos; e a estes que coimam aquello que dos outros recebem. §6 E muytas vezes ofendem a deos aquelles que oficio teem de reger outros e aquelles que som regidos ficam na graça do que os rege. E porem merecem muyto aquelles que som despensseiros fiees os quaaes sem ofendimento husam de ssua despenssom. §7 Devem ergo seer amoestados aquelles que misericordiosamente despenssom o que possuem por que conheçam que som despensseiros do senhorRoquette: despenseiros do Senhor
Rol: despensseiros de senhor
Piel: despensseiros do senhor
e tanto omildosamente esta cousa façom quanto aquello que despenssom conheçam que he alheo. §8 E quando conssiirom que som postos em tal oficio pera despenssar as cousas alheas, nom levantemRoquette: nom levantem
Rol: nõ leuãte
Piel: nom levante
Castro: nom levantem
as suas mentes per inchamento de ssoberva, masRoquette: soberva, mas
Rol: ssoberua, mas
Piel: ssoberva, mes
o temor as abaixe. §9 E para mentes que he necessario que sejam sollicitos per que   [f. 83 recto]   Folio Image ajam de despenssar dignamente e justamente por que nom dês algũasRoquette: nom deem algũas
Rol: nõ de alguas cousas
Piel: nom dês algũas
cousas a quem as nom deve dar §10 ou de pouco a quem deve de dar muyto ou muyto a quem deve de dar pouco e por que esto que assy ham de dar nom sejaRoquette: ham de dar seja
Rol: hã de dar seja
Piel: ham de dar nom seja
spargido sem proveito. §11 Nem sejam tardinheiros por que atormentem os que ham de receber; e as suas enteençõoes nom sejam torvadas por que ajam de perder a graça;§12 e nom ajom cobiiçar aver louvor das cousas transitorias por que percam o eternal, nem ajom de entristecer por aquellas assy dar, nem ajam mais que o que perteece de sse allegrar por aquello que assy der. §13 E nom ajam a ssy de dar algũa cousa daquello que a ssy nomRoquette: que a sy nom
Rol: q̃ assy nõ
Piel: que a ssy nom
Castro: que assi nom
ham de dar por que nom percom todoRoquette: nom percam todo
Rol: nõ precõ todo
Piel: nom percom todo
o primeiro do que derom.

§14 E por que nom apropriem a ssy a virtude da liberallidade ouçam o que he scripto: “Aquel que ministrar algũa cousa, a menistra pella virtude que lhe deos deu”. §15 E por que se nom ajam d’ allegrar sobejamente das cousas bem feitas, ouçam o que he scripto: “Quando fezerdes todallas cousas que vos som mandadas, dizede: ‘servos somos sem proveito a aquelles; o que deveramos de fazer nom o fezemos’ ”. §16 E por que a tristeza nom corrompa a largueza, ouçam aquello que he scripto: “Deos ama o dador allegre”. §17 E por que nom ajom de buscar louvor daquello que assy dam, ouçam o que he scripto: “Nom saibha a tua seestra o que faz a tua deestra”, como se dissesse: da piedosa despenssaçom nom queiras gloria desta vyda presente, mas a tua obra seja toda dereita, sem buscar algũu louvor. §18 E por que esta graça de menistraçom nom seja começada aos parentes e carnaaes amygos sollamente, ouçam o que he scripto: §19 “Quando fezeres jantar ou cea, nom queiras chamar os teus amygos, nem os teus irmãaos, nem os primos coirmãaos, nem os vizinhos, nem os ricos, por que per ventuira elles com de cabo te ajom de convidar e sera a ty feita paga comprida. §20 Mas quando fezeres convite, chama os pobres, fracos, mancos, cegos, e bem-aventurado seras porque estes nom teem onde te ajam de pagar”. §21 E por que aquellas cousas que ha de dar cedo nom dêm tarde, ouçam o que he scripto: “Nom diras ao teu amygo: vay e torna e de manhãa to darey, quando logo podes dar”. §22 E por que so collorRoquette: so collor
Rol: q̃ so collor
de largueza aquellas cousas que possuem semRoquette: pessuem sem
Rol: possuem sem
Piel: possuem sem
proveito as spargam, ouçam o que he scripto: “Aquelle que pouco semea, pouco colhe”. §23 E por que onde compre de dar pouco nom dê muyto, em tal guisa que despois elles padeçom myngua, nom ajom pacienciaRoquette: que despois elles padeçom myngua, e nom ajom paciencia
Rol: q̃ se despois elles padeçõ myngua, e nõ ajõ paciẽcia
Piel: que, se despois elles padeçom myngua, nom ajom paciencia
Castro: que, se despois eles padeçom mingua, e nom hajom paciencia
, ouçam o que he scripto: §24 Nom destriibuades emRoquette: Nom destriibua Deos em
Rol: nõ destrubua deos ẽ
Piel: Nom destriibuades em
tal guisa que aos outros seja avondançaRoquette: avondança
Rol: auondãça
e a vos tribullaçom, mas segundo igualleza deve acorrer aa myngua dosRoquette: aa myngua dos
Rol: aa myngua dos
outros, em tal guisa que nom fique mynguado, que seja costrangido a outros demandar”. §25 Quando a mente do destribuidor polla moor parte nom sabe myngua e sse muyto de ssy tira, em tal guisa que se veja mynguado, busca contra ssy occasiom d’ aver pouca paciencia. §26 E porem primeiramente devem seer aparelhado o coraçom aa paciencia e estonce deve seer destrybuidas as cousas, pouco ou muyto,§27 porque se per ventuira a liberdade for fora de mesura, em tal guisa que possa vĩir myngua ao dador, podesse levantar em murmuraçom, e perderá o mericimentoRoquette: o mericimento
Rol: omericimẽto
Piel: o merecimento
Castro: o mericimento
da liberdade. §28 E porque pode seer que nom daras a algũuRoquette: daras alguũ
Rol: daras alguũ
Piel: daras a algũu
ao qual deves, ouve o que he scripto: “A todo aquel que te pedir, dá”. §29 E por que nom he de algũu a que nom deve dar nemygalha, ouça o que he scripto: “Faze bem ao humildoso, e nom dês ao maao”. §30 E com de cabo: “O teu pam e teu vynho põe sobre a ssepultura do justo e nom queiras del comer nem bever com os pecadores”. §31 Aquelle da o sseu pam e o sseu vynho aos pecadores o qual da aos maaos ajuda ou em quanto som maaos. §32 E ssom algũus ricos deste mundo que quando veem algũa proveza e padecem fame estonce os pobres de CristoReg: Jesus Cristo
Key: Jesus Christ
lhes acorrem com suas esmollas e criam em elles serpentes. §33 Aquel que o sseu pam da ao pobre pecador, nom em quanto pecador, mas porque he homem, este nom criaRoquette: esto cria
Rol: esto cria
Piel: este nom cria
pecador, mas cria justo, porque el nom ha culpa, mas a natureza ama. §34 Devem seer amoestados aquelles, que o sseu ja misericordiosamente deromRoquette: ja misericordiosamente derom
Rol: ja mjsericordiosamẽte derõ
, que estudem como se ajom de guardar, porque ja os pecados passados remyrom perRoquette: remyrom per
Rol: remyrõ per
Piel: remyrom por
Castro: remirom per
esmollas, que nom ajom docemente outros pera outra vez remyrem. §35 E nom penssem que a justiça de deos he cousa que se possa vender   [f. 83 verso]   Folio Image, como se dessem pellos pecados dynheiros e se cuydarem que ja nom poderóm em nehũa cousa pecar. Ouçam o que he scripto: “MaisRoquette: scripto: Mais
Rol: scripto, mais
Piel: scripto: «Mais
he a alma que o manjar e o corpo que a vestidura”.

§36 Aquelle ergo que da mantiimento ou vestidura aos pobres, e a ssua alma e corpo envolve em pecados, oferece aquello que he de menor virtude aa justiça, eRoquette: virtude, e
Rol: uirtude, e
Piel: virtude aa justiça, e
aquello que he de mayor ao pecado; da essas cousas a deos, e sy meesmo ao diaboo. §37 E pello contrairo devem seer amoestados aquelles, que ainda o alheo entendem de roubar, que ajam sollicitamente de ouvyr o que dira o ssenhor quando veher ao juyzo. §38 Dira esto que se ssegue: “Ouve fame e nom me deste de comer; ouve sede e nom me deste de bever; fuy ospede e nom me acolheste; fuy nuu e nom me cobriste; enfermo enno carcereRoquette: enfermo, e no carcere
Rol: ẽfermo e no carcere
e nom me vesitaste”: §39 Aos quaaes dira: “Arredadevos de mym, maldictos, pera o fogo eternal, o qual aparelhado he ao diaboo e seus anjos”. Estas cousas nom ouvyrom porque roubarom algũa cousa ou vyollentamente tomaram; empero seram lançados nos fogos eternaaes. §40 Desto vem a colher em quanta danaçom som lançados aquelles que tomarom o alheo se aquelles que o sseu reteverom ao inferno som julgados. §41 Penssem a que pena os obriga a cousa tomada, se a cousa nom dada sojuga o homem a tal pena. Penssem que merece aquel pecado cometido, se tanta pena avera aquel que nom fez piedade. §42 E quando as cousas alheas entendem de rroubar, ouçam aquello que he scripto: “Maldiçom seja a aquel que multiplica nomRoquette: multiplica, e nom
Rol: multiplica, e nõ
Piel: multiplica nom
suas cousas, e agrava contra ssy lodo basto”. E o avarentoRoquette: he o avarento
Rol: he, oauarẽto
Piel: e o avarento
agravar contra ssy lodo basto, he os gaanhos terreaaes com pecado ajuntar. §43 E quando cobiiçam de ajuntar largas moradas e avytaçõoes, ouçam o que he scripto: “Maldiçom seja a aquelles que ajuntam casa a casa e agro a agro ataa o termo do lugar; per ventuira morades vos soos na meetade da terra?”. §44 Como se abertamente dissesse: ataa quando vos estenderedes? Nom podedes aver em este mundo companheiros a que sejades iguaaes? Apremedes os que vyvem ajuntados, mas sempre achades contra os quaaes vos possades estender. §45 E quando trabalhom d’ ajuntar dinheiros, ouçam aquello que he scripto: “O avarento nom sera cheo de dinheiro e aquel que ama as riquezas nom recebera dellas fruyto”. §46 Receber fruyto dellas é spargellasRoquette: dellas e spargellas
Rol: dellas, é spargellas
Piel: dellas é spargellas
, nom amandoas pera as reteer. E por que ama reteendoas, porem o leixara sem fruyto. §47 E quando cobiiça de seer cheo de rriquezas, ouçam o que he scripto: “Aquel que se atriga pera seer rico, nom sera inocenteRoquette: sera inocẽnte
Rol: sera jnocẽte
Piel: sera inocente
”;§48 e aquel que se trabalha d’ ajuntar riquezas e he negligente pera squivar o pecado, tómasseRoquette: pecado, e tomasse
Rol: pecado, e tomasse
Piel: pecado, tómasse
como se toma a ave com a isca das cousas terreaaes as quaaes muyto deseja, nom conhecendo quandoRoquette: nom conhece quando
Rol: nõ conhecẽ quando
Piel: nom conhecendo quando
he tomado. §49 E quando deseja os gaanhos deste mundo presente, nom sabe aquello que padecerá no futuro pellos dãnos que comete. Ouçam o que he scripto: “A erdade a qual homem vem trigosamente noRoquette: homem se triga somente no
Rol: homẽ ue trigo, semente no
Piel: homem vem trigosamente no
começo, perde a ssorte da béiçom no postumeiro dia”. §50 Porque quando per avarezaRoquette: per avareza
Rol: por auareza
Piel: por avareza
Castro: per avareza
cobiiçam aquy que a malicia seja multiplicada som deserdados do patrimonio eternal. E quando cobiiçam aver todallas cousas que creçam, ouçam aquello que he scripto: “Que aproveita ao homem se todo o mundo gaançar e a ssua alma padecer tormento pera sempre?”. §51 Como se Jesu CristoReg: Jesus Cristo
Key: Jesus Christ
Roquette: Como se Jhũ
Rol: como jhũ
Piel: Como se JesuReg: Jesus Cristo
Key: Jesus Christ
dissesse abertamente: que proveito he ao homem se todo juntasse que he de fora de sy se soo danar aquello que dentro he em ssy?

§52 E pella mayor parte a avareza dos roubadores mais cedo he corregida, se nas pallavrasRoquette: corregida, se nas pallavras
Rol: corregida suas pallauras
Piel: corregida, se nas pallavras
daquel que o amoesta lhe seja demostrada quanto fugitiva he estaRoquette: fugitiva he esta
Rol: fugitiua aesta
Piel: fugitiva he esta
presente vyda§53 e se aa memoriaRoquette: se aa memoria
Rol: se amemoria
Piel: se á memoria
lhes he trazido aquelles que em este mundo cobiiçarom seer dotados de riquezas e, gaançadas as riquezas, nom poderom muito vyver, aos quaaesRoquette: viver; aos quaaes
Rol: uyuer as quaaes
Piel: vyver, aos quaaes
a morte muy trigosa revatadamente tirou toda cousa que ajuntou a ssuaRoquette: ajuntou a sua
Rol: ajũtou aassua
Piel: ajuntou a ssua
mallicia. §54 Aquy leixarom as cousas que roubarom e os pecados do roubo ao juyzo levarom. O exemproRoquette: exempro
Rol: ẽxẽpro
Piel: enxempro
Castro: exempro
destes ouçam, os quaaes nas suas pallavras condanam, por que possam seer retornados aos seus coraçõoes e ajom vergonha de sseguyr aquelles que julgam.

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