Duarte, D. / Leal Conselheiro (1437–1438)
Capitullo LXXIX
Das partes per que somos enssynados e bem encamynhados a rreceber dereito sentido em todallas cousas
[f. 75 recto]§1 Porque nas obras moraaes nom muyto presta conhecer as perfeiçõoes das virtudes, nem todas maneiras de fallicimentos, se os remedios contra o mal e camynho pera o bem nom se demostra, e sabido dereitamente se pratica, §2 porem vos faço esta breve declaraçom das partes per que este sentido com a graça de nosso senhor se rege.
§3 E quanto toca nossa conciencia, per as tres vyrtudes theollegaaesRoquette: theollogaes
Rol: theollegaaes
Piel: theollegaaes suso scriptas somos encamynhados ao filhar na ordenança que aver se deve §4 porque a ffe que avemos dos malles nom passarem sem pena ou satisfaçom na vyda presente ou por vĩir nos faz aver talRoquette: faz aver tal
Rol: faz tal
Piel: faz tal
Castro: faz haver tal temor de toda cousa de que nossa conciencia nos acuse, per que recebemos tal sentido que, do passado fazendo satisfaçom, nos doemos e peraRoquette: doemos para
Rol: doemos pera
Piel: doemos e pera o diante de cayr em semelhantes somos bem avysados.
§5 Per sperança, se bem reguardarmos nos beens presentes e na sancta gloria que averemos se virtuosamente vyvermos, com grande sentido seguyremos as virtudes e leixaremos os malles e pecados.
§6 Se formos per caridade no amor de nosso senhor deos das virtudes enframados, todas obras virtuosas com grande afeiçom e sem costrangymento seguiremos e das contrairas com todo boo sentido seremos afastados.
§7 E sse reguardardes estas virtudes theollegaaes bem poderees conssiirar como os que as ouverem razoadamente das cousas da conciencia devemos filhar e aver dereito sentido §8 pera compryr aquella pallavra de nosso senhor, em que manda que busquemos prymeiro o rreyno de deos e a justiça del sempre e todas cousas pera nosso bem necessarias nos serom outorgadas. §9 E aquesto compriremos se ante que façamos qual quer obra conssiirarmos se per ella fazemos contra serviço de nosso senhor cousa queRoquette: Senhor, que
Rol: senhor, que
Piel: senhor cousa, que por voontade, proveito e prazer que nos requeiram nunca se faça. §10 E sse for segundo sua voontade que no prosseguymento fezermos, guardemos sempre sua justiça ca nom abasta fazer obra que seja boa, mas fazella bem, sem mestura doutros errados feitos ou pratica vyciosa.
§11 Pera os feitos da presente vyda estas tres virtudes suso scriptas, segundo nossa creença e cathollica teençom, som muyto necessarias, mas fallando moralmente perRoquette: moralmente per
Rol: moralmente, pera
Piel: moralmente per as outras quatro cardenalles em todo nos regemos §12 e filhamos de cada hũa cousa o ssentido que aver se deve porque a prudencia sollamente, fallando em geeral, per ssy faz escolher o melhor em todos nossos proprios feitos. §13 E aquesto he perfeiçom de todo boo sentido e virtude. E a justiça manda darRoquette: justiça mandar dar
Rol: justiça mandar dar
Piel: justiça manda dar a cada hũu o que seu he e obrar em todollos feitos o que mais dereitamente se [f. 75 verso]
deve fazer. §14 Porem se mostra que he comprymento de todallas outras, mas, fallando em special, prudencia nos mostra em todo o que he bem e melhor ou mal e peor, §15 consselhandonos sempre scolher a parte mais perfeita, regendo pryncipalmente nosso entender e razom, mostrandonos as vyrtudes pryncipaaes que sempre devemos seguyr, nem ha tempo pera obrar seu contrairo. §16 E as desposiçõoes per a virtude, como som jejũus, vigillias, leer de boos livros, ouvyr sermõoes e boos fallamentos, e estas e outras taaes, nom som propryas virtudes, mes despõoe per ellas e a tempos convem de sse fazerem e outros leixarem. §17 E mostra conhecer as cousas boas per openyom das gentes, como som reverenças, maneiras de rreceber serviços e fazellos, vestirRoquette: e fazellos, vestir
Rol: e fazellos, uestir e trazerse, fazer festas e semelhantes ca esto nom he mais bem que quanto se guarda o custume per boas pessoas mais aprovado. §18 Enssyna esso medês conhecer os sentidos e nembranças que avemos da parte racional e os da senssetiva pera demostrar com que remedios os fallicimentos avemos de enmendar e correger e nos bẽes manteer eRoquette: bẽes manter e
Rol: beẽs manteer e acrecentar. §19 E tam bem nos faz conhecer em que cousas per nosso juyzo, segundo que sabemos e praticamos, devemos determinadamente fallar e obrar §20 e quaaes convem seerem leixadas a prellados e confessores em feito da conciencia e a legistas e degratistas no que perteece a dereito, e aos fisicos e cellurgiãaes em as infirmidadesRoquette: as infirmades
Rol: as jnfirmades
Castro: as infirmidades , e assy a cada hũu em as cousas que per theorica e pratica mais sabem, husando com elles per nosso juyzo nas cousas que per elle bem podemos entender e determynar. §21 E o mais someter aas suas determynaçõoes ca per myngua de tal conhecimento muytos, que por sesudos som contados, cãae em grandes fallicimentos, querendo julgar e determynar per boa razom o que por ella sem enssyno ou grande pratica se nom pode bem entender nem saber. §22 Justiça manda nossa geeral voontade desejar e seguyr o que per prudencia lhe for por melhor demostrado e consselhado. §23 Per temperança pryncipalmente regemos todallas paixõoes da parte desejador, a bem e a mal perteecentes. E per fortelleza dessa guysa as da parte defenssor ou yracyvel.
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